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“...Eu posso não acreditar no que vejo. Eu posso não acreditar no que ouço. Mas no que eu sinto, eu sinto acredito. Mas nem sempre arrisco. Sentir. Por que você foi embora?
Cheguei ensopado em casa. Saí do banho pra atender a porta e era você. Com o meu moletom na mão. Fica - tem alguém me esperando - ainda é cedo - tem alguém me esperando - está chovendo, espera a chuva passar - tem alguém me esperando.
Você foi embora porque eu estava como uma criança grudenta quando vai em aniversário de amiguinho rico que a mãe contrata mágico pra animar a festa. Quando chega a hora que ele usa uma criança para fazer um número eu sou o primeiro a levantar os braços e ficar se sacudindo gritando escolhe eu. Eu sou ridículo desde os seis anos.”
(Victor Carbone in Perciperias)


Sob a luz de João Pessoa
Guardei tantos sorrisos para sua chegada... Trouxe comigo tantos desejos e loucuras, idiossincrasias múltiplas que vamos adquirindo na espera incessante, coisas doces e pequenas, miudinhas tais como as epifanias, costumes, maneiras, modo de olhar a vida, gestos delicados e grosseiros, imaginando dias longos e noites curtas, sonhando... E aí vem o amor lá de longe para destruir e reconstruir cada migalha de existência, cada mania pensada, os hábitos de outra hora, e passamos a viver de maneira dupla, somos unidos num corpo duplo, como em um encontro de sol e lua, que vai gerar um eclipse, nos unimos, sumimos alheios aos limites corpóreos, quatro mãos, quatro pés, somos dois, separados, mas somos unos como uma sinfonia harmônica, cheia de pausas, compassos, dó-ré-mis... Bailamos nessa esfera mágica, sob a luz de João Pessoa, e tendo como trilha o Bolero de Ravel.
P.s.: As imagens são do pôr do sol na Praia do Jacaré em João Pessoa (PB). Saudades de lá, trouxe as recordações na mente, em fotos, na boca, nos olhos e no coração...

Duelo
No caminho de volta, um silêncio tão grande que dava para escutar em meio ao barulho dos passos, as batidas do coração, a respiração ofegante, o uivar do vento numa noite de lua minguante, meio quarto crescente. Um duelo de estrelas no céu escuro e uma caixa na mão, como sonhos esquecidos. Imagens de anjos com asas quebradas. Para lembrar quão grande eram os desejos de outrora. E tudo virara, necessariamente, pó.
Minha sanidade entrou numa rota imaginária, vislumbrando bosques de sonhos e orquídeas raras, com talos curtos, pintadas de roxo e preto, venenosas, não-comestíveis. Eu ultrapasso as barreiras impostas.