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Das coisas que não sei explicar muito bem
O maior amor da minha vida chegou todo de branco e azul, quase um filho de Gandhi, e encheu de cheiro de incenso de canela as minhas narinas aguçadas, perdidas num único faro, como se rastreasse as medidas mais secretas da parte que fica entre o cinto e a batata da perna de quem ouso chamar de majestade. Mãos grandes e peito inflado, o maior amor da minha vida tem um ego enorme, vira e mexe olha-se num espelho paralelo, onde eu só enxergo volúpia, desejos da carne. Doce o mar que banha os corpos dia dois de fevereiro, como se num prelúdio de bênçãos de todos os santos, a rainha do mar avançasse água de cheiro retirada de trás de sua orelha e passasse no pulso do maior amor da minha vida, que laça o cavalo e vai destruir o dragão na lua para que eu possa chamar de meu guerreiro particular, e enquanto voo com asas de cera, caio lentamente cara a cara num deserto de girassóis e o maior amor da minha vida desce para me resgatar...

Finalmente uma possibilidade de amar
“Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.”
(Caio Fernando Abreu, Pequenas epifanias)