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Todo recomeço...
Vou olhar de relance para o seu torso desnudo, antes que nossas vistas se encontrem e me condene a sempre adentrar sua alma que jaz de sua pupila dilatada apropriando-me de um sentimento morno e lento, quase uma lágrima que sai de dentro de mim num espasmo de sorriso, daqueles sem jeito, que esconde uma vergonha adocicada e duas doses e meia de vinho tinto suave a tingir aquele objeto escondido dentro do peito que pulsa, pulsa, pulsa... E busca um completar-se nos braços de outra pessoa, encontrar abrigo num levitar voraz, típico de quem fechou os olhos e se jogou nos raios intensos de uma paixão. Uma paixão rosa de uma aurora típica dos fins de tarde, quando o céu se abre num semblante de felicidade a esperar as estrelas infinitas e brilhantes, assim como eu e você, num sentimento de acolhimento e união...
“Oh can you see it baby?
You don't have to close your eyes
'Cause its standing right here before you
All that you need will surely come…”
(Truly Madly Deeply, Savage Garden)

Todo fim...
O mundo se abriu numa lacuna de uma vertigem de solidão passageira, relance do destino involuntário, coisas que a gente não escolhe sentir, mas sente com toda intensidade do mundo. Sobram as canções, os cantos da casa, a lembrança na frente do espelho quando o que se refletia era muito mais que uma imagem de um, mas de dois, resquícios de olhares vazios buscando preenchimento de cores menores, mas vivas. Nas ruas, os passos que não seguem a lugar nenhum, as tardes imensas, a velocidade do tédio, das horas amargas. O fim é um invólucro sacro, quase um baú de infelicidades repentinas, repetentes, repressivas...
“Não sei o que em mim só quer me lembrar
Que um dia o céu reuniu-se à terra um instante por nós dois
Pouco antes de o ocidente se assombrar”
(Adriana Calcanhoto, “Inverno”)

“São tempos difíceis para os sonhadores...”
Para Nádia, em seus pensamentos soltos
Há um desnivelamento no eixo central, no ponto que culmina entre os pólos de pensar e sentir, dentro de mim. Tenho essa mania de sentir tudo e com tamanha intensidade que abraçaria o céu num voo soturno e ávido, me entregaria fácil ao infinito, de mãos dadas com o tempo, sorrateiro. Não pensar amenidades, não suprir minhas necessidades, amortecer minhas carências. Sentir vontade de beijar e pensar quão ruim é não ter uma boca para a ação recíproca. Desejar o mundo, e ter um pedaço de terra argilosa com alguma planta rasteira invadindo a minha casa e eu percebo que não invade somente o meu recanto, adentra minha alma em forma de figura viva e feroz, vai me tomando, coagindo minha pressão ocular, não vejo, e o que vejo é turvo, permito-me apenas sentir, pensando que talvez o que resta aos sonhadores é a ilusão da possibilidade: podem vir as mãos, os pés, o corpo todo, podem vir ao encontro do meu. E quando tudo estiver mais claro, uma neblina somente será minha companheira. Aos que não tiveram “a sorte de um amor tranqüilo”, há ainda a imaginação, a sensação de realizar qualquer sonho idiota, pueril, ultrapassado, amar está fora de moda.