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A lei do desejo
A gente foi se apertando, somando as igualdades de nossos corpos até não sobrar muita coisa a se comparar, medimos então a intensidade daquilo que estávamos vivendo tão forte, tão rápido e tão puro... Éramos só desejo num labirinto que fazíamos questão de nos perder, éramos a perdição em carne e osso, a multiplicação de nossas afinidades, um mundo que jazia de nossas respectivas vontades, um universo brotando de nossa paixão. Estávamos entregues, um ao outro, em comunhão...

Do amanhecer eterno
Eu te chamo dia, pois amanheceu assim, pra mim. Trouxe consigo a alegria que me faltava. E se navego nos seus olhos, me perco no mar fascinante, nesse azul celestial. Das noites, sonhadas em vão, que lembrança não quero sentir mais. Ele veio e trouxe a magia, nosso sono é quase um transe, e não preciso ter medo de fantasmas perdidos... Respiramos juntos, astutos. Batidas ritmadas dos nossos corações alvoroçados formam a trilha sonora favorita para o repouso no peito do meu amor. Como uma redoma capaz de me proteger dos perigos de ontem, eu sustento nas pontas dos dedos as sensações doces que emanam quando estamos juntos. Eu o beijo na ponta do nariz, e faço votos que essa paz nunca termine. Espero acordar e me deparar com um sorriso junto ao meu. E eu nunca pensei que estar alheio às inclinações mundanas fosse tão interessante. Assistir o relógio passar de maneira desenfreada e não poder fazer absolutamente nada, e ainda assim estar feliz, pois inspiro-me nas eternidades que duram pouco mais que meia hora... Bons dias, paixão, bons dias...
Epílogo: Meu amor é uma zona erógena entre os pontos que estabelecem todo um alfabeto em meu corpo, vai do eixo inicial - boca - às adjacências que me interligam nessa desordem que é um se perder perdendo, quando um cruza a carne do outro e comunga do corpo alheio, quando o desejo é algo que preenche os elos que se ardem, e pedem muito mais que o infinito.
"Deus, põe teu olho amoroso sobre todos os que já tiveram um amor sem nojo nem medo, e de alguma forma insana esperam a volta dele: que os telefones toquem, que as cartas finalmente cheguem ... Sobre todos aqueles que ainda continuam tentando, Deus, derrama teu Sol mais luminoso."
Caio Fernando Abreu

My best souvenir
...Foi como se num repente do destino o meu coração cansasse de bater dentro de mim e, indo em sua direção, quisesse encontrar abrigo no seu peito, mais calmo e forte que o meu. Pedia proteção, talvez, alguém que o cuidasse de maneira melhor que eu. Desnorteado de hematomas físicos e íntimos, arranquei-o gradativamente e entreguei a você, e mesmo se isso não acontecesse, de alguma forma, eu estaria em suas mãos, na ponta dos dedos, como um cigarro, sendo devorado sutilmente, entrando pela sua boca e atingindo os seus pulmões, saindo pelas suas narinas. Eu estaria na sua casa, grande e vazia, a ocupar cada cômodo com minha presença. Eu estaria entre suas pernas, nu, como nasci, a perceber que eu preciso é de carinho e sentimento de entrega. Aonde estou, recostado em seu peito, pairo ileso, sonhando em ser plural nesse mundo tão singular.

Maitê
Eu vi Maitê Proença nua e não foi na revista, nem posando de Dona Beija em cima de um cavalo, ela se desnudou na minha frente e admirei, embora surpreso, sua alma carimbada de hematomas. A dona dos cabelos mais dourados decidiu revelar numa história real, uma vida inventada e quão extasiado eu fiquei ao descobrir que estava amando-a tanto, que ao término da leitura senti uma necessidade de abraçá-la tão forte e tocar seu corpo numa volúpia tão inocente, tão pura quanto seus olhos tristes, de tantas personagens, de Helenas a Marias, de vilãs a mocinhas. Talvez eu me emocionasse, talvez não, mas jamais me esqueceria das suas verdades tão minhas, das horas que passei deitado, deliciando-me com as aventuras. Ou com lágrimas nos olhos imaginando que a vida foi muito dura com essa moça, mas não a tornou digna de pena. Eu imagino Maitê Proença sempre adulta, numa postura de mulher quase digna de Rainha, uma nobreza infinita, uma dama, uma diva. E eu me apaixonei pela mulher da novela, quando eu a li nua, despida de todas suas histórias, sem nenhuma palavra mal contada, sem nenhuma peça de roupa capaz de cobrí-la, totalmente revelada e tão delirante, entre os ossos e a escrita, completamente...