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“Tinham ido passar o reveillon em Ubatuba e, Bia retribuíra a gentileza da hospedagem, fazendo o seu mapa astral. “E o amor? Me fale sobre o amor...?” Bia balançara a cabeça. “acho que você vai ter uma velhice muito solitária.” “Eu acho que a vida inteira fui muito solitária. Não deve fazer muita diferença...”, disse Lena controlando-se para não chorar.”
(Aos meus amigos, Maria Adelaide Amaral)

Zíper
Eu fecho os olhos quando te beijo para olhar pra mim, por dentro, toda a atmosfera vulcânica da paixão sóbria que cresce ao sul do meu corpo, e você acaricia com suas mãos frias e grandes as reminiscências lânguidas do meu afeto, eu projeto todo o meu amor sincero a alguns centímetros de um zíper aberto, e você percebe, claramente, que não é só o meu coração que pulsa ou lateja quando nossos corpos se encontram. Quer prova maior do meu amor, se determinada parte da minha anatomia adianta o pescoço grosso e espreita para te ver melhor e mais de perto? Não se acanhe com minha ousadia, toque-me mais e mais forte e eu me derreterei na palma da sua mão, num jato quente e terno, provando o meu desejo eterno.
“Noite alta que revele um passeio pela pele
Dia claro, madrugada
De nós dois não sei mais nada...”
(Quase nada, Zeca Baleiro)

Hoje, renascido
Tenho preferido o silêncio afim de entender o que se passa dentro de mim, mas meu silêncio de tão inquieto ressoa trovões, traz consigo um barulho de uma tempestade, jaz em mim a plena certeza de renascimento, faz das nuvens cinzas que insistem em rondar meu coração, um dia de sol tranqüilo, calmo, qualquer dia de verão nos trópicos, qualquer céu azul pintado com guache em papel almaço. Eu me redescubro gente a cada instante, quando me sinto vivo para aceitar o amor, para me aprofundar nas sutis noções básicas para viver bem: tentar, tentar e tentar.
“Arco-íris no céu.
Está sorrindo o menino
que há pouco chorou”
(Helena Kolody)

Hard Candy
Você me pede que eu o faça ver estrelas com o poder de meus lábios e eu respondo explorando cada nervo, veia e toda sensibilidade sua, que exige muito mais que um simples movimento de sucção. De baixo avisto seu olhar arteiro, manso, maroto, me encorajando pedindo mais, não me escapo, grudo as mãos em sua coxa grossa e, agora ajoelhado – sem nem mesmo rezar –, sinto-o cair para trás. Escuto o barulho das trombetas angelicais. Meu destino é levar o meu amor ao céu com a boca... Ao céu da boca. Fecho os olhos para sentir o gosto apurado do paraíso.
Doce, doce, doce
A vida é um doce
Vida é mel
Que escorre da boca feito um doce
Pedaço do céu
(Doce mel, Xuxa)