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Ele pede baixinho respostas que o tempo nunca dirá... É fantástico ver seus olhos refletindo os fogos que insistem em estourar em multicores, multiformas... Enquanto assiste o céu brilhar, há um vazio no céu de sua boca... Nobre, quem pode suprir essas carências necessárias? Dói, assim, ver passar a hora em contagem regressiva, em números de dores perdidas, se o mundo foi criado em sete dias, quão bobo somos nós de insistirmos numa contagem de
Amie
(Damien Rice)
Nothing unusual, nothing strange
Close to nothing at all
The same old scenario, the same old rain
And there's no explosions here
Then something unusual, something strange
Comes from nothing at all
I saw a spaceship fly by your window
Did you see it disappear?
Amie come sit on my wall
And read me the story of O
And tell it like you still believe
That the end of the century
Brings a change for you and me
Nothing unusual, nothing's changed
Just a little older that's all
You know when you've found it,
There's something I've learned
'Cause you feel it when they take it away
Something unusual, something strange
Comes from nothing at all
But I'm not a miracle
And you're not a saint
Just another soldier
On the road to nowhere
*Para ver e ouvir música clique aqui
Inebrie-se!

Dor de cabeça. Resultado do vinho de ontem. Jim Morrison na parede, Renato Russo no ouvido e algum filme de Almodóvar na tela parecem me anestesiar... Estou captando cada sentido nas subliminares mensagens que meu eu lírico manda pra meu inconsciente. Desvario, insanidade, angústia letal, prazer inigualável... O dualismo de sentimentos é tanto que já não os reconheço aqui dentro de mim, preciso inalar cada coisa separadamente para que não me extravie tanto quando perceber a loucura que estou me permitindo fazer... Passo calmo no trânsito engarrafado de minha alma, meu limite é meu desejo e eu quero mais. Como um mosaico de figuras expressionistas, eu tento duelar as faces mórbidas: Espanto, doçura, sensatez, voluptuosidade... Agora já nem clamo por misericórdia, à essa altura essa mistura gostosa já me leva ao céu sem ao menos retirar os pés do chão. Nuvens... Apenas! O ritual dura menos que o esperado, o prazer devidamente degustado... Volto pro meu frio. Ao relento, assisto pacientemente a viagem dos outros ao meu redor. Sequer tenho como impedir, agora eu estou só... Me seguro no silêncio que me traduz, leio em braile os escritos faciais, mas é tarde demais, todos se inebriam ao doce pensamento... Até acordarem arrependidos. Ressaca...
Para minha amiga secreta:
Uma carta e pétalas de rosas

Querida Lili,
Depois daquele vinho e longas conversas, fiquei a me perguntar o que faz, de uma pessoa a milhares de distancia, se tornar especial na vida de uma outra? Ah, querida, não cheguei a nenhuma resposta lógica, não há explicação... Tudo que é terno é como o eterno: Não tem explicação! E na ternura, no carinho e no amor, tudo é possível. Aguardo suas quase histórias de amor como quem aguarda noticias de parentes que moram longe, afinal me encontro no Vale da solidão, nunca se esqueça. Busco na noite fria, o encanto mais belo para meus sonhos... Leio seus escritos como criança com presente novo: eufórico, astuto, alegre... E sempre paro pra pensar sobre suas inspirações. Outro dia, você me contou sobre viver a vida, você se lembra? Fiquei a imaginar aqui sobre como a vida é bela e doido somos nós que não sabemos brincar com ela. Nas suas quase histórias de amor, que são de vida, acima de tudo, você me ensina que não bata existir pra se ter algum valor na vida ou fazer a diferença, mas que é preciso saber viver.
Nunca se esqueça de mim,
Júnior
Terminada a carta, o rapaz foi até o seu jardim, colheu algumas rosas, arrancou suavemente suas pétalas, lembrou-se do sorriso bonito da destinatária da carta e sentiu uma felicidade imensa fluindo ao perceber que o vento passara e levara consigo a carta à sua amiga, junto com as pétalas de saudade. Enfim, aprendera a lição: É preciso saber viver, como sua amiga sabia...
(Roberto Carlos)
Quem espera que a vida
Seja feita de ilusão
Pode até ficar maluco
Ou morrer na solidão
É preciso ter cuidado
Pra mais tarde não sofrer
É preciso saber viver
Toda pedra do caminho
Você pode retirar
Numa flor que tem espinhos
Você pode se arranhar
Se o bem e o mal existem
Você pode escolher
É preciso saber viver
É preciso saber viver
É preciso saber viver
É preciso saber viver
Saber viver, saber viver!
Para visitar o blog da minha amiga secreta, clique na imagem
(...)

“State of emergence...”

Como criar personas dentro de outras personas... Máscaras por cima de máscaras... Eis o ambiente que encontro ao meu redor... Sorrisos de plástico, corações de pedra... Num segundo elevo-me ao sétimo céu e declino, gradativamente, rumo ao quinto dos infernos. Ataco com veemência a força que insiste em se manter serena aqui... A luz dos olhos de quem eu amo é a lanterna na calada da noite escura... O canto que me seduz revela a forma mais ambígua de me fazer ser eu mesmo e persistir nesta caminhada... Preciso disso para viver... Estar num estado de imergência comigo mesmo, resguardando cada sentimento devidamente envolto na minha caixa sacramentada localizada do lado esquerdo do meu peito. Porque há um vazio em minha alma, um buraco negro de dimensões imensuráveis... Adentro nele em busca de significabilidade para as respostas que exijo me dar ao me fazer perguntar... Sempre vai ser assim. Embora o mundo seja mundo, vamos todos criar uma moradia paralela e voarmos para lá, quando sentirmos vontade. Desperdiçando penas de nossas asas de anjos num vôo continuo que não nos leva a lugar reconhecível aos olhos alheios, mas a um lugar extremamente famíliar às nossas incertezas particulares...
Para ver, ouvir e sentir:
“E o corpo inteiro como um furacão
Boca, nuca, mão e a tua mente não...”
(Cazuza)

Deito do seu lado, passo meu nariz no teu pescoço, tateio sua penugem, te trago pra cima de mim... Beijo sua boca, delicio-me com sua saliva, te pego breve, louca, esbaforida, num impulso crucial. Adentro-te com força, sinto um gemido sufocado, te abraço, te mordo, babo, na transcendência máxima de seu eu. Olho-te com desejo, mas quero guardar seu semblante pecaminoso nesse momento, fecho meus olhos com seus dedos. Luxúria, suspiro, latência, sou levado, novamente, pra dentro de você, devagar... Apago teu fogo com meu suor.
E assim prossegue até o estouro acontecer, coloco minha cabeça em teu peito e sinto, de perto, as batidas ritmadas do seu coração... Descanso sob teu colo como um menino carente e com sono, ergo a face até que nossos lábios se reencontram, acaricio sua nuca... E aí começa tudo outra vez...
“Eu vou te jogar num pano de guardar confetes...”
(Chão de giz, Zé Ramalho)
Saiu cedo para mais um dia de trabalho... Cedo entenda-se: eram quase 23 horas. Sandália plataforma, vestido insinuante, que deixava à mostra suas pernas bem torneadas, um decote generoso, uma maquiagem pesada. Estava se sentindo fatal. Toca o celular e ela já pensa que é um cliente... Atende, sem reconhecer o número e do outro lado da linha uma voz familiar esbraveja, aflita: “Pedro Henrique, teu pai morreu!”. A frase acertou-a como um tiro direto no peito siliconado. Sentou na pedra mais próxima e chorou... chorou alto, um choro sentido, um choro aflito, desesperado. Veio um cara forte de lá do escuro e perguntou se ela estava se sentindo bem. E ela, com a cara manchada de lágrima e maquiagem borrada, respondeu que não. Voltou pra casa, num ônibus cheio. Sentou no fundo, mas ainda assim, foi vítima de olhares curiosos, seu choro continuava...
Lembrou de sua vidinha pacata no interior e a forma que ela se transformou nessa verdadeira novela de final feliz refutável. Aos 18 anos, foi expulsa de casa pelo seu pai, tão rígido e tão frio que não agüentava as chacotas dos vizinhos ao verem passar aquele menino de trejeitos afeminados. Sempre fora afeminado, desde até mesmo o momento que não se entendera por gente, ainda. Sempre fora o “estranhozinho” da família e nunca se sentiu bem na sua própria pele, sempre se sentiu preso naquele corpo masculino que insistia
Vagou durante dias, vivendo de lixo ou pedindo grana para as pessoas em bares, pousadas, botequins e prostíbulos. E foi num prostíbulo que conheceu Das Dores, a cafetina mais famosa da região. Das Dores olhou para o corpo daquele rapaz e já imaginou que poderia ser útil... Deu abrigo, comida e zelo, devidamente interessada em algo, bem verdade. Financiou as doses de hormônios e a aplicação de silicone. Logo, Pedro Henrique, tornara-se um menino com corpo de mulher. Das Dores incentivou a usar sua estética para fins de prostituição. E logo Pedro Henrique passou a ser Perla Rum e seu ponto era o mais solicitado, assim como seu corpo com cheiro de perfume barato. Passou a atender muita gente primeiro pelas ruas da grande cidade, depois no prostíbulo de Das Dores, mas sua vida nunca foi fácil: sentia saudades de sua mãe, não entendia a frieza de seu pai, apanhava, esporadicamente, de clientes alterados, drogava-se com freqüência, usava antidepressivo... Sua vida desregrada culminou com o total abandono de todos, inclusive de Das Dores que exigiu, moeda a moeda, o dinheiro empregado na transformação de Perla Rum e a expulsou do prostíbulo ameaçando mata-la se lá retornasse.
Desolada, lá foi ela para a rua de novo, os travestis mais antigos abominavam-na, era vista como uma infeliz, mas quem não era naquela situação? Depois de largar as drogas reergeu-se um pouco na vida, alugou apartamento, comprou sapatos caros, conseguiu mandar dinheiro para a mãe e até um celular da moda conseguiu adquirir. Estava ainda “fazendo vida”, mas com dignidade, se é que isso era possível. Pretendia voltar rica para sua terra natal e esfregar ouro puro na cara daqueles que a humilharam, um dia. Mas no fundo, no fundo, queria ser bem sucedida para mostrar ao seu pai que conseguiu sobreviver. Ela sempre guardou rancor dele. Nas conversas por telefone com sua mãe, nunca tocara no nome dele. E sua mãe sequer insistia, sempre fora submissa a filho, marido, irmão, enfim. Mas o telefonema anunciando a morte de seu pai, pegara Perla de surpresa. Ela não sabia o que fazer... foi excomungada, marginalizada e desprezada por seu pai e porque se importara com sua morte? Não conseguia entender... ficou a noite inteira acordada, pensando.
No outro dia, pegou um ônibus rumo àquela cidadezinha maldita do interior, era hora de reencontrar o passado da pior forma possível. Arrumou-se sobriamente, ajeitou o mega hair e disfarçou os seios volumosos com um vestido menos extravagante que o comum. Ao pisar naquela terra que lhe virara as costas há anos, sentiu uma ponta de angústia, mas ergueu a cabeça e atravessou a cidade à pé, até chegar em sua antiga casa... Tudo parecia manter-se igual, vegetação, clima, ilustração, parecia que a imagem tinha sido congelada e recapitulada. Sentiu pena de seu pai. Adentrou sua casa, onde o corpo do velho estava colocado num caixão na sala, levantou o véu que cobria o rosto morto, beijou a testa e disse, com os olhos cheios d´água: “Daí-me o dom de perdoar, Deus, pois paciência eu tenho de sobra”.
“...E ao coração que teima em bater
avisa que é de se entregar o viver...”
(Pois é, Los Hermanos)

Foi assim que eu a vi, pela primeira vez
Ela estava sentada ali na calçada...
Recitando versos de pura contemplação.
Noite de lua cheia, coração batendo forte...
Ainda que se mantivesse calada...
Nobreza emanava de seu ser
Doce captação da singularidade de sua alma
Apaixonei-me perdidamente por ela!